{"id":1245,"date":"2025-01-29T22:48:45","date_gmt":"2025-01-29T22:48:45","guid":{"rendered":"https:\/\/sitioagatha.org\/?p=1245"},"modified":"2025-01-29T22:57:28","modified_gmt":"2025-01-29T22:57:28","slug":"mar-e-terra-como-elementos-sagrados-do-povo-wayuu-transicao-energetica-no-extremo-norte-da-colombia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sitioagatha.org\/?p=1245","title":{"rendered":"Mar e Terra como Elementos Sagrados do Povo Wayuu: Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica no Extremo Norte da Col\u00f4mbia"},"content":{"rendered":"\n<p>O futuro, por vezes idealizado como reden\u00e7\u00e3o ou temido como destrui\u00e7\u00e3o, est\u00e1 profundamente ligado \u00e0s marcas do presente. Para o pensador ind\u00edgena Ailton Krenak, o futuro \u00e9 menos uma linha distante e mais uma continuidade do que sempre existiu. Ele v\u00ea os rios como seres ancestrais, atravessando tempos e mundos, sustentando a vida em suas m\u00faltiplas formas (Krenak, 2023).<\/p>\n\n\n\n<p>Essa cosmo-percep\u00e7\u00e3o ressoa em La Guajira, uma regi\u00e3o onde a terra \u00e1rida e o mar do Caribe se encontram. Esse territ\u00f3rio, moldado pela ancestralidade e pela resist\u00eancia do povo Wayuu, carrega em sua paisagem hist\u00f3rias e significados espirituais. Cada elemento natural conecta o passado ao presente, sustentando modos de vida que desafiam as imposi\u00e7\u00f5es de um mundo\u00a0 predat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/wayuu03-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1258\" srcset=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/wayuu03-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/wayuu03-300x225.jpeg 300w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/wayuu03-768x576.jpeg 768w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/wayuu03.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Rio Rancher\u00eda<br>Cr\u00e9dito da imagem: Luis Soares (2024)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os Wayuu vivem na fronteira com a Venezuela, onde o rio Rancher\u00eda, al\u00e9m de ser uma fonte essencial de \u00e1gua, \u00e9 tamb\u00e9m um s\u00edmbolo sagrado. Esse rio sustenta pr\u00e1ticas culturais e modos de vida profundamente enraizados na rela\u00e7\u00e3o com a terra. A organiza\u00e7\u00e3o social matrilinear dos Wayuu assegura a transmiss\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es e a prote\u00e7\u00e3o de suas identidades seculares, fortalecendo a resist\u00eancia cultural diante de amea\u00e7as externas que comprometem sua conex\u00e3o espiritual e territorial.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, a expans\u00e3o de parques e\u00f3licos, parte da estrat\u00e9gia nacional de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, tamb\u00e9m transforma territ\u00f3rios e impacta comunidades. Com um potencial e\u00f3lico estimado em cerca de 15 gigawatts, esses projetos frequentemente geram conflitos sociais, incluindo expuls\u00f5es, viol\u00eancia e divis\u00f5es internas, amea\u00e7ando os modos de vida tradicionais e as conex\u00f5es territoriais de diversas popula\u00e7\u00f5es afetadas (Dialogue Earth, 2025).<\/p>\n\n\n\n<p>A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica em La Guajira exp\u00f5e um dilema contundente: ser\u00e1 poss\u00edvel falar em sustentabilidade enquanto territ\u00f3rios ancestrais s\u00e3o transformados em zonas de sacrif\u00edcio, e as vozes dos povos origin\u00e1rios continuam silenciadas? Essa quest\u00e3o desafia diretamente as narrativas de &#8220;progresso&#8221; e &#8220;energia limpa&#8221;, revelando as contradi\u00e7\u00f5es de um modelo econ\u00f4mico que perpetua desigualdades sociais e ambientais sob o r\u00f3tulo de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Buscando responder essa quest\u00e3o, entre os dias 18 e 22 de novembro de 2024, vivi uma experi\u00eancia marcante em La Guajira, durante meu est\u00e1gio de doutorado no Instituto de Pesquisas Regionais da Universidade de Antioquia. Cheguei \u00e0 regi\u00e3o em meio a uma temporada de chuvas intensas, que transformaram o deserto e suas paisagens \u00e1ridas em cen\u00e1rios de enchentes inesperadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Territ\u00f3rios Ancestrais Wayuu em Conflito: Vozes de Resist\u00eancia e a Luta pela Preserva\u00e7\u00e3o Cultural e Ambiental<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em um dia de fortes chuvas em Riohacha, capital de La Guajira,&nbsp; entrevistei Jazmin Romero Epiay\u00fa em seu escrit\u00f3rio, onde lidera o <a href=\"https:\/\/movimientofeministawayuu.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Movimiento Feminista Ni\u00f1as y Mujeres Wayuu.<\/a> Logo ao chegar, chamou aten\u00e7\u00e3o o robusto sistema de c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia instalado no local, um reflexo das constantes amea\u00e7as que enfrenta devido \u00e0 sua atua\u00e7\u00e3o em defesa dos Direitos Humanos, das mulheres e do territ\u00f3rio ancestral Wayuu. Desde o in\u00edcio da conversa, ficou evidente sua conex\u00e3o profunda com o territ\u00f3rio, descrito como a ess\u00eancia espiritual e cultural do povo Wayuu. &#8220;Sem territ\u00f3rio, n\u00e3o somos ningu\u00e9m&#8221;, afirmou Jazmin, destacando que o mar e a terra n\u00e3o s\u00e3o apenas recursos, mas parte integral da cosmovis\u00e3o de sua comunidade, proporcionando sustento, harmonia e conex\u00e3o espiritual.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"633\" height=\"575\" src=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/territorio-wayuu-01.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1250\" srcset=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/territorio-wayuu-01.png 633w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/territorio-wayuu-01-300x273.png 300w\" sizes=\"(max-width: 633px) 100vw, 633px\" \/><figcaption>Territ\u00f3rio Wayuu (Col\u00f4mbia) <br>Cr\u00e9dito da imagem: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.oxfamcolombia.org\/mujeres-amigas-del-viento-reflexiones-de-mujeres-wayuu-sobre-el-cambio-climatico\/\" target=\"_blank\">Archivo Fuerza de Mujeres Wayuu<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Jazmin teceu cr\u00edticas contundentes aos parques e\u00f3licos instalados em terras Wayuu, que ela descreveu como &#8220;uma nova forma de coloniza\u00e7\u00e3o&#8221;. Esses projetos, segundo a l\u00edder, prejudicam a natureza e a cultura local, interrompendo rotas migrat\u00f3rias de aves, desarmonizando o ambiente espiritual e dividindo as comunidades. &#8220;N\u00e3o podemos falar de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica quando exterminam um povo&#8221;, declarou. Para ela, o impacto ambiental e cultural dessas iniciativas \u00e9 um reflexo de como os discursos de &#8220;energia limpa&#8221; muitas vezes mascaram pr\u00e1ticas destrutivas.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrevistada tamb\u00e9m denunciou as consultas realizadas pelas empresas envolvidas nesses projetos, que ela considera processos manipulados. Segundo Jazmin, essas negocia\u00e7\u00f5es oferecem benef\u00edcios tempor\u00e1rios para dividir as comunidades e obter territ\u00f3rios sagrados. Apesar disso, h\u00e1 resist\u00eancia, como a das <a href=\"https:\/\/www.oxfamcolombia.org\/mujeres-amigas-del-viento-reflexiones-de-mujeres-wayuu-sobre-el-cambio-climatico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&#8220;Guardianas del Viento&#8221;, um grupo de mulheres Wayuu que luta contra os despojos territoriais<\/a>. &#8220;Somos guardi\u00f5es por mil\u00eanios, e isso n\u00e3o \u00e9 novidade&#8221;, disse ela, refor\u00e7ando o papel hist\u00f3rico das comunidades ind\u00edgenas na preserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>Jazmin criticou duramente os governos por priorizarem interesses corporativos em detrimento da prote\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios ancestrais, sob o pretexto da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Locais sagrados como Jepirachi, essenciais para a espiritualidade Wayuu, t\u00eam sido devastados por pol\u00edticas que desconsideram as tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Seu discurso ressoou como um chamado \u00e0 resist\u00eancia e \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o cultural, lembrando o valor simb\u00f3lico de espa\u00e7os como Japira, localizado no Cabo de la Vela, \u00e9 um territ\u00f3rio que combina aridez e mar azul, abrigando um ponto de encontro entre vivos e mortos, onde se preserva a conex\u00e3o espiritual e cultural da comunidade Wayuu.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, as chuvas cessaram, novos encontros ganharam espa\u00e7o. Foi ent\u00e3o que conheci Ana Gonzalez, lideran\u00e7a tradicional,&nbsp; cuja presen\u00e7a refletia a resili\u00eancia das mulheres Wayuu. Com a sabedoria de quem viveu as transforma\u00e7\u00f5es do territ\u00f3rio em sua pr\u00f3pria pele, Ana compartilhou hist\u00f3rias que revelam a for\u00e7a de sua liga\u00e7\u00e3o com a terra e o mar.e &#8220;A terra a consideramos a nossa m\u00e3e,&#8221; afirmou, explicando que as mulheres Wayuu s\u00e3o justamente o s\u00edmbolo de coes\u00e3o social e continuidade cultural. O mar, por sua vez, carrega um significado profundo, nutrindo tanto o corpo quanto as tradi\u00e7\u00f5es espirituais e m\u00edsticas do povo. &#8220;Nossa hist\u00f3ria est\u00e1 conectada com o mar,&#8221; comentou, destacando como essas narrativas atravessam gera\u00e7\u00f5es, mantendo viva a cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ressaltou os impactos negativos que os parques e\u00f3licos causam nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas. \u201cH\u00e1 muitos impactos que ocasionam mudan\u00e7as na cultura das pessoas e na vida dos grupos ind\u00edgenas,\u201d declarou. Ela mencionou que cada peda\u00e7o de terra \u00e9 significativo para os Wayuu, seja como local sagrado ou para atividades de subsist\u00eancia, como o pastoreio de caprinos. \u201cN\u00e3o h\u00e1 um cent\u00edmetro de terra que n\u00e3o tenha import\u00e2ncia para os Wayuu,\u201d frisou.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrevistada tamb\u00e9m abordou os processos de consulta pr\u00e9via, ressaltando que, quando conduzidos sem respeito \u00e0s normas culturais do povo Wayuu, geram divis\u00f5es internas e conflitos. \u201cAs consultas n\u00e3o foram transparentes\u2026 a comunidade n\u00e3o teve a assessoria suficiente para tomar a melhor decis\u00e3o,\u201d afirmou. Ela destacou a import\u00e2ncia de envolver os verdadeiros donos dos territ\u00f3rios de maneira efetiva, respeitando a organiza\u00e7\u00e3o matrilinear que \u00e9 central \u00e0 cultura Wayuu.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa mesma interse\u00e7\u00e3o entre cultura, espiritualidade e resist\u00eancia emerge na fala de Alexander Iguar\u00e1n, pescador artesanal e l\u00edder ind\u00edgena Wayuu. Em uma entrevista online, ele refor\u00e7ou o v\u00ednculo profundo entre seu povo e o territ\u00f3rio: \u201cSomos seres do mar e da terra,\u201d afirmou, destacando que esses elementos n\u00e3o s\u00e3o apenas fontes de sustento, mas constituem a ess\u00eancia espiritual dos Wayuu. Assim como os processos de consulta ignoram os saberes tradicionais, os grandes projetos energ\u00e9ticos amea\u00e7am romper a conex\u00e3o ancestral dos Wayuu com sua terra e mar, comprometendo n\u00e3o apenas sua subsist\u00eancia, mas tamb\u00e9m sua identidade espiritual e cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Como lideran\u00e7a, ele denunciou os impactos devastadores de projetos e\u00f3licos, solares e de transmiss\u00e3o de energia, que n\u00e3o apenas transformam a paisagem, mas fragmentam comunidades e colocam em risco modos de vida ancestrais. &#8220;Esses projetos n\u00e3o consideram nossa rela\u00e7\u00e3o espiritual com a terra, o mar e o vento&#8221;, afirmou Alexander, explicando que, para o povo Wayuu, esses elementos n\u00e3o s\u00e3o apenas recursos, mas partes vivas de sua cosmovis\u00e3o. Ele tamb\u00e9m criticou duramente os processos de consulta pr\u00e9via realizados pelas empresas, chamando-os de manipuladores e desrespeitosos. Segundo ele, essas consultas frequentemente promovem divis\u00f5es internas e exploram a vulnerabilidade das comunidades para obter acesso a terras sagradas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"642\" height=\"361\" src=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/territorio-wayuu-00.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1252\" srcset=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/territorio-wayuu-00.png 642w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/territorio-wayuu-00-300x169.png 300w\" sizes=\"(max-width: 642px) 100vw, 642px\" \/><figcaption>Cr\u00e9dito da imagem: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.oxfamcolombia.org\/mujeres-amigas-del-viento-reflexiones-de-mujeres-wayuu-sobre-el-cambio-climatico\/\" target=\"_blank\">Miguel Iv\u00e1n Ram\u00edrez Bosc\u00e1n<\/a><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Em suas palavras, ficou evidente que os desafios enfrentados pelas comunidades Wayuu v\u00e3o al\u00e9m do ambiental. S\u00e3o quest\u00f5es de justi\u00e7a social, que ressoam profundamente com as lutas no Nordeste brasileiro. Ele tamb\u00e9m destacou a necessidade de alian\u00e7as transnacionais para fortalecer as resist\u00eancias. &#8220;O que acontece na Guajira \u00e9 muito semelhante ao que voc\u00eas vivem no Brasil. Precisamos compartilhar experi\u00eancias e aprendizados para proteger nossos territ\u00f3rios&#8221;, concluiu.<\/p>\n\n\n\n<p>As palavras de Alexander trouxeram \u00e0 tona conflu\u00eancias entre as viv\u00eancias da Guajira e do Nordeste do Brasil. A partir de sua perspectiva, ficou vis\u00edvel que o territ\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 apenas espa\u00e7o f\u00edsico, mas vida, identidade e espiritualidade. As chuvas que inicialmente interromperam meus passos n\u00e3o foram obst\u00e1culo, mas um convite a uma escuta mais profunda sobre as vozes que clamam por justi\u00e7a e respeito \u00e0 terra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Futuro Ancestral: Justi\u00e7a na Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica da Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao visitar La Guajira e conhecer a luta dos Wayuu, percebi como suas hist\u00f3rias ressoam com os desafios enfrentados por comunidades ind\u00edgenas e quilombolas no Brasil, especialmente no Nordeste. Em ambos os contextos, o discurso do progresso trazido por grandes projetos de infraestrutura de energia m\u00e1scara a devasta\u00e7\u00e3o cultural e ambiental. Territ\u00f3rios s\u00e3o tratados como recursos explor\u00e1veis, e n\u00e3o como espa\u00e7os vivos, profundamente enraizados nas cosmovis\u00f5es que sustentam a identidade e a espiritualidade desses povos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa mesma cr\u00edtica \u00e9 central na obra de Joanna Barney (2024), que exp\u00f5e as contradi\u00e7\u00f5es de um modelo de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica em La Guajira. Barney evidencia como projetos e\u00f3licos offshore e de hidrog\u00eanio verde se sobrep\u00f5em a zonas ambientalmente sens\u00edveis, como os pastos marinhos no Cabo de la Vela, essenciais para a biodiversidade e para a captura de carbono azul.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final dessa reflex\u00e3o, retomo as palavras de Ailton Krenak, que ensina que o futuro n\u00e3o \u00e9 uma ruptura com a ancestralidade.&nbsp; Assim, os povos origin\u00e1rios nos mostram que a terra, o rio e o vento n\u00e3o s\u00e3o meros recursos, mas parentes que compartilham conosco a vida e os ciclos da exist\u00eancia. \u00c9 nesse v\u00ednculo com as ra\u00edzes ancestrais que reside a possibilidade de construirmos um amanh\u00e3. O futuro, n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas uma mem\u00f3ria viva, tecida entre o passado e o presente. O futuro \u00e9, de fato, ancestral.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BARNEY, Joanna. <strong>Las praderas de Pulowi: Contradicciones ambientales entre proyectos e\u00f3licos offshore e industria del hidr\u00f3geno verde, y el cuidado de los pastos marinos del Cabo de la Vela en La Guajira<\/strong>. Bogot\u00e1: INDEPAZ, Outubro de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>DIALOGUE EARTH. <strong>Parques e\u00f3licos e comunidades ind\u00edgenas na Col\u00f4mbia<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/energia\/368855-parques-eolicos-comunidades-indigenas-colombia\/\">https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/energia\/368855-parques-eolicos-comunidades-indigenas-colombia\/<\/a>. Acesso em: 02 jan. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>KRENAK, Ailton. <strong>O futuro \u00e9 ancestral<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>OLIVEIRA, L. D. de; TRALDI, M.; OCHOA, J. D. Z. Economic Geography, Energy Change and Sustainable Development: Reflections on Brazil and Colombia. In: MISHRA, M. et al. (Eds.). <em>Climate Change and Regional Socio-Economic Systems in the Global South.<\/em> Springer Nature, 2024. p. 55-64. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1007\/978-981-97-3870-0_4\">https:\/\/doi.org\/10.1007\/978-981-97-3870-0_4<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>OPEN DEMOCRACY. <strong>Mina de carv\u00e3o El Cerrej\u00f3n na Col\u00f4mbia acusada de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e ambientais<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.opendemocracy.net\/pt\/mina-carvao-carrejon-colombia-acusada-direitos-humanos-ambientais\/\">https:\/\/www.opendemocracy.net\/pt\/mina-carvao-carrejon-colombia-acusada-direitos-humanos-ambientais\/<\/a>. Acesso em: 02 jan. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Autor<\/em>: Luis Antonio da Silva Soares<\/p>\n\n\n\n<p><em>Revis\u00e3o e corre\u00e7\u00e3o:<\/em> Gus Cabrera e J\u00f4 Rodrigues<\/p>\n\n\n\n<p><em>Design<\/em>: Diego Amorim<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O futuro, por vezes idealizado como reden\u00e7\u00e3o ou temido como destrui\u00e7\u00e3o, est\u00e1 profundamente ligado \u00e0s marcas do presente. Para o pensador ind\u00edgena Ailton Krenak, o futuro \u00e9 menos uma linha distante e mais uma continuidade do que sempre existiu. Ele v\u00ea os rios como seres ancestrais, atravessando tempos e mundos, sustentando a vida em suas m\u00faltiplas formas (Krenak, 2023). 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Para o pensador ind\u00edgena Ailton Krenak, o futuro \u00e9 menos uma linha distante e mais uma continuidade do que sempre existiu. Ele v\u00ea os rios como seres ancestrais, atravessando tempos e mundos, sustentando a vida em suas m\u00faltiplas formas (Krenak, 2023).<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Essa cosmo-percep\u00e7\u00e3o ressoa em La Guajira, uma regi\u00e3o onde a terra \u00e1rida e o mar do Caribe se encontram. Esse territ\u00f3rio, moldado pela ancestralidade e pela resist\u00eancia do povo Wayuu, carrega em sua paisagem hist\u00f3rias e significados espirituais. Cada elemento natural conecta o passado ao presente, sustentando modos de vida que desafiam as imposi\u00e7\u00f5es de um mundo\u00a0 predat\u00f3rio.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:image {\"id\":1258} --><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/wayuu03-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1258\" \/><figcaption>Rio Rancher\u00eda<br \/>Cr\u00e9dito da imagem: Luis Soares (2024)<\/figcaption><\/figure>\n<p><!-- \/wp:image --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Os Wayuu vivem na fronteira com a Venezuela, onde o rio Rancher\u00eda, al\u00e9m de ser uma fonte essencial de \u00e1gua, \u00e9 tamb\u00e9m um s\u00edmbolo sagrado. Esse rio sustenta pr\u00e1ticas culturais e modos de vida profundamente enraizados na rela\u00e7\u00e3o com a terra. A organiza\u00e7\u00e3o social matrilinear dos Wayuu assegura a transmiss\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es e a prote\u00e7\u00e3o de suas identidades seculares, fortalecendo a resist\u00eancia cultural diante de amea\u00e7as externas que comprometem sua conex\u00e3o espiritual e territorial.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Da mesma forma, a expans\u00e3o de parques e\u00f3licos, parte da estrat\u00e9gia nacional de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, tamb\u00e9m transforma territ\u00f3rios e impacta comunidades. Com um potencial e\u00f3lico estimado em cerca de 15 gigawatts, esses projetos frequentemente geram conflitos sociais, incluindo expuls\u00f5es, viol\u00eancia e divis\u00f5es internas, amea\u00e7ando os modos de vida tradicionais e as conex\u00f5es territoriais de diversas popula\u00e7\u00f5es afetadas (Dialogue Earth, 2025).<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica em La Guajira exp\u00f5e um dilema contundente: ser\u00e1 poss\u00edvel falar em sustentabilidade enquanto territ\u00f3rios ancestrais s\u00e3o transformados em zonas de sacrif\u00edcio, e as vozes dos povos origin\u00e1rios continuam silenciadas? Essa quest\u00e3o desafia diretamente as narrativas de &#8220;progresso&#8221; e &#8220;energia limpa&#8221;, revelando as contradi\u00e7\u00f5es de um modelo econ\u00f4mico que perpetua desigualdades sociais e ambientais sob o r\u00f3tulo de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Buscando responder essa quest\u00e3o, entre os dias 18 e 22 de novembro de 2024, vivi uma experi\u00eancia marcante em La Guajira, durante meu est\u00e1gio de doutorado no Instituto de Pesquisas Regionais da Universidade de Antioquia. Cheguei \u00e0 regi\u00e3o em meio a uma temporada de chuvas intensas, que transformaram o deserto e suas paisagens \u00e1ridas em cen\u00e1rios de enchentes inesperadas.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><strong>Territ\u00f3rios Ancestrais Wayuu em Conflito: Vozes de Resist\u00eancia e a Luta pela Preserva\u00e7\u00e3o Cultural e Ambiental<\/strong><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Em um dia de fortes chuvas em Riohacha, capital de La Guajira,&nbsp; entrevistei Jazmin Romero Epiay\u00fa em seu escrit\u00f3rio, onde lidera o <a href=\"https:\/\/movimientofeministawayuu.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Movimiento Feminista Ni\u00f1as y Mujeres Wayuu.<\/a> Logo ao chegar, chamou aten\u00e7\u00e3o o robusto sistema de c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia instalado no local, um reflexo das constantes amea\u00e7as que enfrenta devido \u00e0 sua atua\u00e7\u00e3o em defesa dos Direitos Humanos, das mulheres e do territ\u00f3rio ancestral Wayuu. Desde o in\u00edcio da conversa, ficou evidente sua conex\u00e3o profunda com o territ\u00f3rio, descrito como a ess\u00eancia espiritual e cultural do povo Wayuu. &#8220;Sem territ\u00f3rio, n\u00e3o somos ningu\u00e9m&#8221;, afirmou Jazmin, destacando que o mar e a terra n\u00e3o s\u00e3o apenas recursos, mas parte integral da cosmovis\u00e3o de sua comunidade, proporcionando sustento, harmonia e conex\u00e3o espiritual.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:image {\"align\":\"center\",\"id\":1250,\"sizeSlug\":\"full\",\"linkDestination\":\"none\"} --><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"633\" height=\"575\" src=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/territorio-wayuu-01.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1250\" \/><figcaption>Territ\u00f3rio Wayuu (Col\u00f4mbia) <br \/>Cr\u00e9dito da imagem: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.oxfamcolombia.org\/mujeres-amigas-del-viento-reflexiones-de-mujeres-wayuu-sobre-el-cambio-climatico\/\" target=\"_blank\">Archivo Fuerza de Mujeres Wayuu<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p><!-- \/wp:image --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Jazmin teceu cr\u00edticas contundentes aos parques e\u00f3licos instalados em terras Wayuu, que ela descreveu como &#8220;uma nova forma de coloniza\u00e7\u00e3o&#8221;. Esses projetos, segundo a l\u00edder, prejudicam a natureza e a cultura local, interrompendo rotas migrat\u00f3rias de aves, desarmonizando o ambiente espiritual e dividindo as comunidades. &#8220;N\u00e3o podemos falar de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica quando exterminam um povo&#8221;, declarou. Para ela, o impacto ambiental e cultural dessas iniciativas \u00e9 um reflexo de como os discursos de &#8220;energia limpa&#8221; muitas vezes mascaram pr\u00e1ticas destrutivas.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A entrevistada tamb\u00e9m denunciou as consultas realizadas pelas empresas envolvidas nesses projetos, que ela considera processos manipulados. Segundo Jazmin, essas negocia\u00e7\u00f5es oferecem benef\u00edcios tempor\u00e1rios para dividir as comunidades e obter territ\u00f3rios sagrados. Apesar disso, h\u00e1 resist\u00eancia, como a das <a href=\"https:\/\/www.oxfamcolombia.org\/mujeres-amigas-del-viento-reflexiones-de-mujeres-wayuu-sobre-el-cambio-climatico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&#8220;Guardianas del Viento&#8221;, um grupo de mulheres Wayuu que luta contra os despojos territoriais<\/a>. &#8220;Somos guardi\u00f5es por mil\u00eanios, e isso n\u00e3o \u00e9 novidade&#8221;, disse ela, refor\u00e7ando o papel hist\u00f3rico das comunidades ind\u00edgenas na preserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Jazmin criticou duramente os governos por priorizarem interesses corporativos em detrimento da prote\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios ancestrais, sob o pretexto da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Locais sagrados como Jepirachi, essenciais para a espiritualidade Wayuu, t\u00eam sido devastados por pol\u00edticas que desconsideram as tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Seu discurso ressoou como um chamado \u00e0 resist\u00eancia e \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o cultural, lembrando o valor simb\u00f3lico de espa\u00e7os como Japira, localizado no Cabo de la Vela, \u00e9 um territ\u00f3rio que combina aridez e mar azul, abrigando um ponto de encontro entre vivos e mortos, onde se preserva a conex\u00e3o espiritual e cultural da comunidade Wayuu.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>No dia seguinte, as chuvas cessaram, novos encontros ganharam espa\u00e7o. Foi ent\u00e3o que conheci Ana Gonzalez, lideran\u00e7a tradicional,&nbsp; cuja presen\u00e7a refletia a resili\u00eancia das mulheres Wayuu. Com a sabedoria de quem viveu as transforma\u00e7\u00f5es do territ\u00f3rio em sua pr\u00f3pria pele, Ana compartilhou hist\u00f3rias que revelam a for\u00e7a de sua liga\u00e7\u00e3o com a terra e o mar.e &#8220;A terra a consideramos a nossa m\u00e3e,&#8221; afirmou, explicando que as mulheres Wayuu s\u00e3o justamente o s\u00edmbolo de coes\u00e3o social e continuidade cultural. O mar, por sua vez, carrega um significado profundo, nutrindo tanto o corpo quanto as tradi\u00e7\u00f5es espirituais e m\u00edsticas do povo. &#8220;Nossa hist\u00f3ria est\u00e1 conectada com o mar,&#8221; comentou, destacando como essas narrativas atravessam gera\u00e7\u00f5es, mantendo viva a cultura.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Ressaltou os impactos negativos que os parques e\u00f3licos causam nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas. \u201cH\u00e1 muitos impactos que ocasionam mudan\u00e7as na cultura das pessoas e na vida dos grupos ind\u00edgenas,\u201d declarou. Ela mencionou que cada peda\u00e7o de terra \u00e9 significativo para os Wayuu, seja como local sagrado ou para atividades de subsist\u00eancia, como o pastoreio de caprinos. \u201cN\u00e3o h\u00e1 um cent\u00edmetro de terra que n\u00e3o tenha import\u00e2ncia para os Wayuu,\u201d frisou.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A entrevistada tamb\u00e9m abordou os processos de consulta pr\u00e9via, ressaltando que, quando conduzidos sem respeito \u00e0s normas culturais do povo Wayuu, geram divis\u00f5es internas e conflitos. \u201cAs consultas n\u00e3o foram transparentes\u2026 a comunidade n\u00e3o teve a assessoria suficiente para tomar a melhor decis\u00e3o,\u201d afirmou. Ela destacou a import\u00e2ncia de envolver os verdadeiros donos dos territ\u00f3rios de maneira efetiva, respeitando a organiza\u00e7\u00e3o matrilinear que \u00e9 central \u00e0 cultura Wayuu.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Essa mesma interse\u00e7\u00e3o entre cultura, espiritualidade e resist\u00eancia emerge na fala de Alexander Iguar\u00e1n, pescador artesanal e l\u00edder ind\u00edgena Wayuu. Em uma entrevista online, ele refor\u00e7ou o v\u00ednculo profundo entre seu povo e o territ\u00f3rio: \u201cSomos seres do mar e da terra,\u201d afirmou, destacando que esses elementos n\u00e3o s\u00e3o apenas fontes de sustento, mas constituem a ess\u00eancia espiritual dos Wayuu. Assim como os processos de consulta ignoram os saberes tradicionais, os grandes projetos energ\u00e9ticos amea\u00e7am romper a conex\u00e3o ancestral dos Wayuu com sua terra e mar, comprometendo n\u00e3o apenas sua subsist\u00eancia, mas tamb\u00e9m sua identidade espiritual e cultural.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Como lideran\u00e7a, ele denunciou os impactos devastadores de projetos e\u00f3licos, solares e de transmiss\u00e3o de energia, que n\u00e3o apenas transformam a paisagem, mas fragmentam comunidades e colocam em risco modos de vida ancestrais. &#8220;Esses projetos n\u00e3o consideram nossa rela\u00e7\u00e3o espiritual com a terra, o mar e o vento&#8221;, afirmou Alexander, explicando que, para o povo Wayuu, esses elementos n\u00e3o s\u00e3o apenas recursos, mas partes vivas de sua cosmovis\u00e3o. Ele tamb\u00e9m criticou duramente os processos de consulta pr\u00e9via realizados pelas empresas, chamando-os de manipuladores e desrespeitosos. Segundo ele, essas consultas frequentemente promovem divis\u00f5es internas e exploram a vulnerabilidade das comunidades para obter acesso a terras sagradas.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:image {\"align\":\"center\",\"id\":1252,\"sizeSlug\":\"full\",\"linkDestination\":\"none\"} --><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"642\" height=\"361\" src=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/territorio-wayuu-00.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1252\" \/><figcaption>Cr\u00e9dito da imagem: <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.oxfamcolombia.org\/mujeres-amigas-del-viento-reflexiones-de-mujeres-wayuu-sobre-el-cambio-climatico\/\" target=\"_blank\">Miguel Iv\u00e1n Ram\u00edrez Bosc\u00e1n<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p><!-- \/wp:image --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Em suas palavras, ficou evidente que os desafios enfrentados pelas comunidades Wayuu v\u00e3o al\u00e9m do ambiental. S\u00e3o quest\u00f5es de justi\u00e7a social, que ressoam profundamente com as lutas no Nordeste brasileiro. Ele tamb\u00e9m destacou a necessidade de alian\u00e7as transnacionais para fortalecer as resist\u00eancias. &#8220;O que acontece na Guajira \u00e9 muito semelhante ao que voc\u00eas vivem no Brasil. Precisamos compartilhar experi\u00eancias e aprendizados para proteger nossos territ\u00f3rios&#8221;, concluiu.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>As palavras de Alexander trouxeram \u00e0 tona conflu\u00eancias entre as viv\u00eancias da Guajira e do Nordeste do Brasil. A partir de sua perspectiva, ficou vis\u00edvel que o territ\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 apenas espa\u00e7o f\u00edsico, mas vida, identidade e espiritualidade. As chuvas que inicialmente interromperam meus passos n\u00e3o foram obst\u00e1culo, mas um convite a uma escuta mais profunda sobre as vozes que clamam por justi\u00e7a e respeito \u00e0 terra.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><strong>O Futuro Ancestral: Justi\u00e7a na Transi\u00e7\u00e3o Energ\u00e9tica da Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Ao visitar La Guajira e conhecer a luta dos Wayuu, percebi como suas hist\u00f3rias ressoam com os desafios enfrentados por comunidades ind\u00edgenas e quilombolas no Brasil, especialmente no Nordeste. Em ambos os contextos, o discurso do progresso trazido por grandes projetos de infraestrutura de energia m\u00e1scara a devasta\u00e7\u00e3o cultural e ambiental. Territ\u00f3rios s\u00e3o tratados como recursos explor\u00e1veis, e n\u00e3o como espa\u00e7os vivos, profundamente enraizados nas cosmovis\u00f5es que sustentam a identidade e a espiritualidade desses povos.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Essa mesma cr\u00edtica \u00e9 central na obra de Joanna Barney (2024), que exp\u00f5e as contradi\u00e7\u00f5es de um modelo de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica em La Guajira. Barney evidencia como projetos e\u00f3licos offshore e de hidrog\u00eanio verde se sobrep\u00f5em a zonas ambientalmente sens\u00edveis, como os pastos marinhos no Cabo de la Vela, essenciais para a biodiversidade e para a captura de carbono azul.&nbsp;<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Ao final dessa reflex\u00e3o, retomo as palavras de Ailton Krenak, que ensina que o futuro n\u00e3o \u00e9 uma ruptura com a ancestralidade.&nbsp; Assim, os povos origin\u00e1rios nos mostram que a terra, o rio e o vento n\u00e3o s\u00e3o meros recursos, mas parentes que compartilham conosco a vida e os ciclos da exist\u00eancia. \u00c9 nesse v\u00ednculo com as ra\u00edzes ancestrais que reside a possibilidade de construirmos um amanh\u00e3. O futuro, n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, mas uma mem\u00f3ria viva, tecida entre o passado e o presente. O futuro \u00e9, de fato, ancestral.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>BARNEY, Joanna. <strong>Las praderas de Pulowi: Contradicciones ambientales entre proyectos e\u00f3licos offshore e industria del hidr\u00f3geno verde, y el cuidado de los pastos marinos del Cabo de la Vela en La Guajira<\/strong>. Bogot\u00e1: INDEPAZ, Outubro de 2024.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>DIALOGUE EARTH. <strong>Parques e\u00f3licos e comunidades ind\u00edgenas na Col\u00f4mbia<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/energia\/368855-parques-eolicos-comunidades-indigenas-colombia\/\">https:\/\/dialogue.earth\/pt-br\/energia\/368855-parques-eolicos-comunidades-indigenas-colombia\/<\/a>. Acesso em: 02 jan. 2025.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>KRENAK, Ailton. <strong>O futuro \u00e9 ancestral<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2023.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>OLIVEIRA, L. D. de; TRALDI, M.; OCHOA, J. D. Z. Economic Geography, Energy Change and Sustainable Development: Reflections on Brazil and Colombia. In: MISHRA, M. et al. (Eds.). <em>Climate Change and Regional Socio-Economic Systems in the Global South.<\/em> Springer Nature, 2024. p. 55-64. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1007\/978-981-97-3870-0_4\">https:\/\/doi.org\/10.1007\/978-981-97-3870-0_4<\/a>.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>OPEN DEMOCRACY. <strong>Mina de carv\u00e3o El Cerrej\u00f3n na Col\u00f4mbia acusada de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e ambientais<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.opendemocracy.net\/pt\/mina-carvao-carrejon-colombia-acusada-direitos-humanos-ambientais\/\">https:\/\/www.opendemocracy.net\/pt\/mina-carvao-carrejon-colombia-acusada-direitos-humanos-ambientais\/<\/a>. Acesso em: 02 jan. 2025.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><em>Autor<\/em>: Luis Antonio da Silva Soares<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><em>Revis\u00e3o e corre\u00e7\u00e3o:<\/em> Gus Cabrera e J\u00f4 Rodrigues<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><em>Design<\/em>: Diego Amorim<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n","comment_info":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1245"}],"collection":[{"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1245"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1245\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1259,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1245\/revisions\/1259"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1247"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1245"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1245"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1245"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}