{"id":1215,"date":"2025-01-15T22:25:29","date_gmt":"2025-01-15T22:25:29","guid":{"rendered":"https:\/\/sitioagatha.org\/?p=1215"},"modified":"2025-01-17T21:51:52","modified_gmt":"2025-01-17T21:51:52","slug":"afroecologia-em-movimento-ancestralidade-e-resistencia-contra-as-linhas-de-transmissao-de-energia-eolica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sitioagatha.org\/?p=1215","title":{"rendered":"Afroecologia em Movimento: Ancestralidade e Resist\u00eancia contra \u00e0s Linhas de Transmiss\u00e3o de Energia E\u00f3lica"},"content":{"rendered":"\n<p>No dia 3 de dezembro de 2023, o Brasil perdeu Ant\u00f4nio Bispo dos Santos, conhecido como Nego Bispo, da comunidade Saco do Curtume, no Piaui. Sua partida nos convida a refletir sobre o ciclo cont\u00ednuo da vida, como ele t\u00e3o eloquentemente ensinava: come\u00e7o-meio-come\u00e7o. Por meio de sua rica oralidade, Nego Bispo ressaltou o papel hist\u00f3rico das resist\u00eancias dos povos afro-ind\u00edgenas diante da coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu legado transcende as palavras, manifestando-se em a\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es que inspiram movimentos. Ao nos encorajar a reconhecer a identidade Afropindor\u00e2mica \u2014 um conceito que une a di\u00e1spora africana \u00e0s ra\u00edzes ind\u00edgenas \u2014, ele confrontou as vis\u00f5es fragmentadas impostas pelo ocidente. Essa perspectiva reafirma a exist\u00eancia e resist\u00eancia de povos ancestrais antes da coloniza\u00e7\u00e3o, celebrando a conflu\u00eancias&nbsp; de suas heran\u00e7as culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua obra <em>A Terra D\u00e1, a Terra Quer<\/em>, Nego Bispo destacou os impactos devastadores das linhas de transmiss\u00e3o de energia e\u00f3licas sobre comunidades rurais, quilombolas e ind\u00edgenas, chamando aten\u00e7\u00e3o para a desconex\u00e3o entre o desenvolvimento energ\u00e9tico e o respeito aos territ\u00f3rios. Esse alerta reverbera na experi\u00eancia vivida no Complexo de Assentamentos do Prado, em Tracunha\u00e9m, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. A instala\u00e7\u00e3o da Linha de Transmiss\u00e3o 500 kV Campina Grande III \u2013 Pau Ferro, conduzida pela empresa Rialma, afetou diretamente os assentamentos Nova Cana\u00e3, Chico Mendes I e Ismael Felipe, trazendo consequ\u00eancias sociais e ambientais significativas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A expans\u00e3o das energias renov\u00e1veis no Brasil: impactos sociais, raciais e de g\u00eanero nas comunidades rurais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"341\" src=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/imagem_TeR_01-1024x341.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1230\" srcset=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/imagem_TeR_01-1024x341.png 1024w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/imagem_TeR_01-300x100.png 300w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/imagem_TeR_01-768x256.png 768w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/imagem_TeR_01.png 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Desmatamento e trabalhos n\u00e3o autorizados para a instala\u00e7\u00e3o da Linha de Transmiss\u00e3o no assentamento Chico Mendes I &#8211; Tracunha\u00e9m (PE). Cr\u00e9ditos das imagens: acervo S\u00edtio \u00c1gatha.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p>No Brasil, a integra\u00e7\u00e3o de fontes &#8220;renov\u00e1veis&#8221; \u00e0 matriz energ\u00e9tica come\u00e7ou h\u00e1 cerca de duas d\u00e9cadas. Hoje, energia solar e e\u00f3lica representam 22,5% da capacidade instalada, com forte concentra\u00e7\u00e3o no Nordeste. No entanto, essa expans\u00e3o tem ocorrido sob o pretexto do &#8220;desenvolvimento sustent\u00e1vel&#8221;, resultando em apropria\u00e7\u00f5es de terras e&nbsp; deslocamentos for\u00e7ados de pequenos agricultores radicalizados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a luta contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas seja uma prioridade pol\u00edtica global inquestion\u00e1vel, \u00e9 crucial examinar como os projetos &#8220;verdes&#8221; s\u00e3o planejados e implementados, bem como seus impactos diretos sobre as terras e os meios de subsist\u00eancia de comunidades rurais. A apropria\u00e7\u00e3o de terras vai al\u00e9m do uso direto da terra para a gera\u00e7\u00e3o de energia e\u00f3lica, abrangendo tamb\u00e9m as infra estruturas associadas, como a transmiss\u00e3o de eletricidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por&nbsp; motivos como esse&nbsp; Breno Bringel (2023) critica esse consenso global de descarboniza\u00e7\u00e3o, destacando como as pol\u00edticas energ\u00e9ticas frequentemente favorecem interesses financeiros e corporativos em detrimento da justi\u00e7a clim\u00e1tica. Esse cen\u00e1rio \u00e9 particularmente evidente nas \u00e1reas rurais do Nordeste, onde comunidades negras continuam sendo desapropriadas, perpetuando ciclos de opress\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante lembrar, como afirmou a destacada antrop\u00f3loga L\u00e9lia Gonz\u00e1lez (1983), que o conceito de &#8220;ra\u00e7a&#8221; constitui um elemento crucial, influenciando as din\u00e2micas cotidianas das rela\u00e7\u00f5es interpessoais e institucionais, assim como o acesso a direitos e oportunidades. Essa influ\u00eancia racial est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 experi\u00eancia de g\u00eanero. Ao mesmo tempo, o g\u00eanero n\u00e3o pode ser analisado de forma isolada, pois est\u00e1 profundamente entrela\u00e7ado com a quest\u00e3o racial e a classe social. A configura\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do capitalismo e do patriarcado coloca as mulheres, especialmente as negras, em uma posi\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel. Elas enfrentam a sobrecarga do trabalho n\u00e3o remunerado, muitas vezes t\u00eam seus direitos legais negados e s\u00e3o condenadas a uma vida prec\u00e1ria \u00e0s margens do capitalismo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"385\" src=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/imagem_TeR_02-1024x385.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1231\" srcset=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/imagem_TeR_02-1024x385.png 1024w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/imagem_TeR_02-300x113.png 300w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/imagem_TeR_02-768x289.png 768w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/imagem_TeR_02.png 1510w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Resist\u00eancia das mulheres negras e camponesas \u00e0 instala\u00e7\u00e3o das torres em Tracunha\u00e9m. <br>\u00c0 direita, Maria da Concei\u00e7\u00e3o Gon\u00e7alves, moradora do assentamento Nova Cana\u00e3. \u00c0 esquerda Nzinga Cavalcante, moradora do S\u00edtio \u00c1gatha. Cr\u00e9ditos das imagens: Gus Cabrera (2022)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Nzinga Cavalcante (2022) ilustra essa realidade ao oferecer um poderoso testemunho sobre as viol\u00eancias de g\u00eanero e ra\u00e7a que as mulheres negras enfrentam ao administrar territ\u00f3rios rurais. Relata como a empresa respons\u00e1vel pelas linhas de transmiss\u00e3o no S\u00edtio \u00c1gatha&nbsp; intensificou o desrespeito ao descobrir que eram mulheres que administravam a terra:<br><em>&#8220;A empresa \u00e9 desumana, completamente desumana. Quando descobriram que eram mulheres quem administravam a terra, o desrespeito aumentou. Tivemos que nos impor com alega\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e humanas. Eu me sentia como quando chegaram \u00e0 \u00c1frica, para roubar nosso ouro, levando as pessoas sempre para a gan\u00e2ncia do dinheiro, para a avareza, e dessa avareza para o sangue, esse pecado&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Essa reflex\u00e3o se relaciona com a an\u00e1lise da soci\u00f3loga Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9\u0301 Oy\u011bw\u00f9m\u00ed (2022), que aponta que o controle territorial por meio da financeiriza\u00e7\u00e3o da terra foi um mecanismo chave da coloniza\u00e7\u00e3o. Os colonizadores transformam os territ\u00f3rios em ativos financeiros, rompendo os ciclos ancestrais de gest\u00e3o comunit\u00e1ria, afetando especialmente as mulheres negras, uma vez que as leis coloniais estabeleciam que apenas os homens podiam ter acesso legal \u00e0 terra. Esse contexto de despojo e exclus\u00e3o destaca a necessidade de uma mudan\u00e7a de paradigma na compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre a terra e a mulher negra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Saberes ancestrais como caminho para justi\u00e7a Afroecologica&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o africana e ind\u00edgena possui uma vis\u00e3o hol\u00edstica, reconhecendo que todos compartilham a mesma natureza. \u00c9 essencial preservar e transmitir \u00e0s pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es a ideia da terra como um elemento sagrado em uma dimens\u00e3o espiritual. Na mem\u00f3ria coletiva do S\u00edtio \u00c1gatha guardam-se diversas pr\u00e1ticas tradicionais, transmitidas por meio de cantos durante o plantio do milho, dan\u00e7as para alegrar as crian\u00e7as e prepara\u00e7\u00f5es coletivas da comida. Essas pr\u00e1ticas fortalecem o v\u00ednculo com a natureza e a ancestralidade, apontando para caminhos que superem a crise ambiental e o \u00f3dio racial na sociedade brasileira. Luiza Cavalcante (2022), ao criar o conceito de Afroecologia, enfatiza essa conex\u00e3o:<br><em>&#8220;Tenho mem\u00f3ria do cuidado pela natureza, pela vida e por quem tem fome. Essa rela\u00e7\u00e3o com a terra e a vida me acompanha e faz parte do S\u00edtio. Buscamos manter essa forma de cuidado em nossas atividades di\u00e1rias. Esse cuidado \u00e9 Afroecologia. Lembramos como nossos pais e av\u00f3s cuidavam da terra. Trazer isso para o presente tem sido importante e fortalecedor. O que o povo negro faz est\u00e1 ligado \u00e0 \u00c1frica&#8221;.<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"http:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/foto-07-baixa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1225\" srcset=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/foto-07-baixa.jpg 1000w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/foto-07-baixa-300x200.jpg 300w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/foto-07-baixa-768x512.jpg 768w, https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/foto-07-baixa-600x400.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption>Luiza Cavalcante colhendo os frutos da terra. Cr\u00e9dito: Gus Cabrera (2022)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Afroecologia, como concebida pela mestra Luiza Cavalcante, reconhece que muitas das pr\u00e1ticas atualmente associadas \u00e0 agroecologia s\u00e3o, na verdade, saberes milenares desenvolvidos pelos povos afrodescendentes. Fundamentada nos conhecimentos tradicionais africanos, a Afroecologia n\u00e3o \u00e9 apenas uma pr\u00e1tica agr\u00edcola, mas um movimento que promove uma rela\u00e7\u00e3o hol\u00edstica com a natureza. Ao integrar m\u00e9todos agr\u00edcolas que dialoguem com o ecossistema, ela fortalece a seguran\u00e7a alimentar das comunidades e fomenta a resili\u00eancia clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>A viv\u00eancia dos saberes ancestrais valoriza pr\u00e1ticas culturais e apresenta solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e inovadoras para os desafios ambientais contempor\u00e2neos. O conceito de Afroecologia, nesse contexto, reflete a proposta da intelectual quilombola Beatriz do Nascimento (2022), que enfatiza a import\u00e2ncia de preservar os saberes e pr\u00e1ticas que sustentaram as comunidades negras ao longo do tempo. Essa continuidade negra reafirma a resist\u00eancia da ancestralidade como uma for\u00e7a viva contra a destrui\u00e7\u00e3o ambiental e social.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em contraste, a realidade das linhas de transmiss\u00e3o de energia revela o conflito entre a resist\u00eancia comunit\u00e1ria e a explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria do territ\u00f3rio. A instala\u00e7\u00e3o da linha de transmiss\u00e3o de 500 kV Campina Grande III \u2013 Pau Ferro, conduzida pela empresa Rialma, exemplifica esse conflito. Este projeto foi realizado sem a devida consulta \u00e0s comunidades diretamente afetadas e sem a realiza\u00e7\u00e3o de audi\u00eancias p\u00fablicas, infringindo a Lei de Pol\u00edtica Nacional do Meio Ambiente (Lei n\u00ba 6.938\/1981), que estabelece a necessidade de participa\u00e7\u00e3o das comunidades na tomada de decis\u00f5es que impactem seus territ\u00f3rios. A falta de transpar\u00eancia e a aus\u00eancia de medidas mitigat\u00f3rias resultaram em impactos devastadores, como a morte de animais, a diminui\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es de abelhas, apropria\u00e7\u00e3o indevida de terras, fragmenta\u00e7\u00e3o social e mudan\u00e7a no modo de vida dos assentados da reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.grupoageenergia.com.br\/grupo-rialma\" target=\"_blank\">empresa Rialma<\/a>, controlada pela fam\u00edlia Caiado, carrega um hist\u00f3rico preocupante, com acusa\u00e7\u00f5es de pr\u00e1ticas de trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o em suas fazendas, o que reflete uma trajet\u00f3ria de explora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e desrespeito aos direitos humanos. Diante dessa realidade, as comunidades afetadas t\u00eam reagido com resist\u00eancia criativa e propositiva, adotando pr\u00e1ticas de mapeamento participativo, oficinas e eventos culturais como forma de documentar os impactos e fortalecer suas tradi\u00e7\u00f5es. Essas iniciativas s\u00e3o exemplos de como a Afroecologia \u00e9 a ess\u00eancia dos saberes ancestrais e a luta pela prote\u00e7\u00e3o socioambiental onde suas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o poderosas ferramentas de resist\u00eancia contra a explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria da nova etapa do capitalismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BISPO DOS SANTOS, Ant\u00f4nio. <em>A Terra Dar a Terra Quer<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Ubu, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>BRIGEL, Breno. <em>Del consenso de los commodities al consenso de la descarbonizaci\u00f3n<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/nuso.org\/articulo\/306-del-consenso-de-los-commodities-al-consenso-de-la-descarbonizacion\">https:\/\/nuso.org\/articulo\/306-del-consenso-de-los-commodities-al-consenso-de-la-descarbonizacion<\/a>. Acesso em: 12 nov. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>GONZALEZ, L\u00e9lia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: SILVA, L. A.; OLIVEIRA, M. C.; CARVALHO, J. M. (Org.). <em>Movimentos sociais urbanos, minorias e outros estudos<\/em>. Bras\u00edlia: ANPOCS, 1983.<\/p>\n\n\n\n<p>NASCIMENTO, Beatriz. <em>Quilombola e intelectual: possibilidade nos dias de destrui\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Filhos da \u00c1frica, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>OY\u011aW\u00d9M\u00cd, Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9. <em>A inven\u00e7\u00e3o das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de g\u00eanero<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Wanderson Flor do Nascimento. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Sobre o autor<\/em>: <\/p>\n\n\n\n<p>Luis Antonio da Silva Soares \u00e9 bacharel em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e mestre em Extens\u00e3o Rural e Desenvolvimento Local pela mesma institui\u00e7\u00e3o. Especialista em Educa\u00e7\u00e3o Ambiental e Cultural pelo Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia de Pernambuco (IFPE) e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atuou como bolsista na Iniciativa de Pol\u00edticas de Transa\u00e7\u00f5es de Terras (Land Deal Politics Initiative &#8211; LDPI) e pesquisador no monitoramento do Projeto Dom Helder C\u00e2mara no semi\u00e1rido brasileiro. Atualmente, \u00e9 educador na Associa\u00e7\u00e3o S\u00edtio \u00c1gatha, desenvolvendo projetos nas \u00e1reas ambientais e culturais, com foco em agroecologia e no fortalecimento de comunidades tradicionais. Tamb\u00e9m integra o Grupo de Estudos Macondo: Artes, Culturas Contempor\u00e2neas e Outras Epistemologias da Unidade Acad\u00eamica de Serra Talhada (UAST\/UFRPE). Realiza est\u00e1gio de doutorado sandu\u00edche no Instituto de Estudios Regionales (INER) da Universidad de Antioquia, na Col\u00f4mbia.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Pesquisadoras<\/em> <em>colaboradoras<\/em>: <\/p>\n\n\n\n<p>Nzinga Cavalcante \u00e9 m\u00e3e de \u00c1gatha, t\u00e9cnica em Agroecologia pelo SERTA (PE), graduanda no Bacharelado em Agroecologia, Educa\u00e7\u00e3o Popular e Campesinato na UFRPE. Esta tesoureira da Associa\u00e7\u00e3o S\u00edtio \u00c1gatha onde desenvolve atividades como educadora popular e como coordenadora de log\u00edstica. <\/p>\n\n\n\n<p>Luiza Cavacalnte \u00e9 m\u00e3e de Nzinga e av\u00f3 de \u00c1gatha, brincante popular, mestra, educadora popular, t\u00e9cnica em Agroecologia pelo SERTA (PE). Conta com uma vasta trajet\u00f3ria em movimentos sociais e populares. Atualmente est\u00e1 presidenta da Associa\u00e7\u00e3o S\u00edtio \u00c1gatha, onde realiza tarefas de articula\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o de projetos. <\/p>\n\n\n\n<p><em>Editor:<\/em> Gustavo Cabrera Christiansen \u00e9 comunicador social formado pela Universidad de Buenos Aires (Argentina). H\u00e1 mais de uma d\u00e9cada participa de coletivos de Comunica\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria e Popular. Atualmente est\u00e1 mestrando no Programa de P\u00f3s Gradua\u00e7\u00e3o na Universidade Federal de Pernambuco. Integra a Associa\u00e7\u00e3o S\u00edtio \u00c1gatha, onde tem coordenado a \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o de diversos projetos.<br><em>Revis\u00e3o textual:<\/em> J\u00f4 Rodrigues \u00e9 plurifacetada, apaixonada pelas artes e pelos encontros. Percorre em v\u00e1rios territ\u00f3rios como a fotografia, a poesia e a contabilidade. Atualmente realiza seu prop\u00f3sito de compartilhar formas de elabora\u00e7\u00e3o de projetos culturais, sociais e ambientais, comunicando sobre a constru\u00e7\u00e3o coletiva de rela\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis.<br><em>Designer gr\u00e1fico: <\/em>Diego Amorim \u00e9 formado em Publicidade e propaganda (2011) e t\u00e9cnico em Design gr\u00e1fico (2006). J\u00e1 trabalhou alguns anos na \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o em ag\u00eancias de publicidade do Recife como Diretor de Arte. Tamb\u00e9m trabalhou para a  Associa\u00e7\u00e3o Metropolitana de Ciclistas do Recife e na Escola Livre de Redu\u00e7\u00e3o de Danos, dentre outros.&nbsp;Como ilustrador autodidata, nos \u00faltimos anos pesquisa cultura, hist\u00f3ria e arte africana outorgando um diferencial a seu trabalho autoral. <\/p>\n\n\n\n<p> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 3 de dezembro de 2023, o Brasil perdeu Ant\u00f4nio Bispo dos Santos, conhecido como Nego Bispo, da comunidade Saco do Curtume, no Piaui. Sua partida nos convida a refletir sobre o ciclo cont\u00ednuo da vida, como ele t\u00e3o eloquentemente ensinava: come\u00e7o-meio-come\u00e7o. 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Sua partida nos convida a refletir sobre o ciclo cont\u00ednuo da vida, como ele t\u00e3o eloquentemente ensinava: come\u00e7o-meio-come\u00e7o. Por meio de sua rica oralidade, Nego Bispo ressaltou o papel hist\u00f3rico das resist\u00eancias dos povos afro-ind\u00edgenas diante da coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Seu legado transcende as palavras, manifestando-se em a\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es que inspiram movimentos. Ao nos encorajar a reconhecer a identidade Afropindor\u00e2mica \u2014 um conceito que une a di\u00e1spora africana \u00e0s ra\u00edzes ind\u00edgenas \u2014, ele confrontou as vis\u00f5es fragmentadas impostas pelo ocidente. Essa perspectiva reafirma a exist\u00eancia e resist\u00eancia de povos ancestrais antes da coloniza\u00e7\u00e3o, celebrando a conflu\u00eancias&nbsp; de suas heran\u00e7as culturais.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Em sua obra <em>A Terra D\u00e1, a Terra Quer<\/em>, Nego Bispo destacou os impactos devastadores das linhas de transmiss\u00e3o de energia e\u00f3licas sobre comunidades rurais, quilombolas e ind\u00edgenas, chamando aten\u00e7\u00e3o para a desconex\u00e3o entre o desenvolvimento energ\u00e9tico e o respeito aos territ\u00f3rios. Esse alerta reverbera na experi\u00eancia vivida no Complexo de Assentamentos do Prado, em Tracunha\u00e9m, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. A instala\u00e7\u00e3o da Linha de Transmiss\u00e3o 500 kV Campina Grande III \u2013 Pau Ferro, conduzida pela empresa Rialma, afetou diretamente os assentamentos Nova Cana\u00e3, Chico Mendes I e Ismael Felipe, trazendo consequ\u00eancias sociais e ambientais significativas.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><strong>A expans\u00e3o das energias renov\u00e1veis no Brasil: impactos sociais, raciais e de g\u00eanero nas comunidades rurais<\/strong><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:columns --><\/p>\n<div class=\"wp-block-columns\"><!-- wp:column {\"width\":\"100%\"} --><\/p>\n<div class=\"wp-block-column\" style=\"flex-basis:100%\"><!-- wp:group --><\/p>\n<div class=\"wp-block-group\"><!-- wp:image {\"id\":1230,\"sizeSlug\":\"large\",\"linkDestination\":\"none\"} --><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"341\" src=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/imagem_TeR_01-1024x341.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1230\" \/><figcaption>Desmatamento e trabalhos n\u00e3o autorizados para a instala\u00e7\u00e3o da Linha de Transmiss\u00e3o no assentamento Chico Mendes I &#8211; Tracunha\u00e9m (PE). Cr\u00e9ditos das imagens: acervo S\u00edtio \u00c1gatha.<\/figcaption><\/figure>\n<p><!-- \/wp:image --><\/div>\n<p><!-- \/wp:group --><\/div>\n<p><!-- \/wp:column --><\/div>\n<p><!-- \/wp:columns --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>No Brasil, a integra\u00e7\u00e3o de fontes &#8220;renov\u00e1veis&#8221; \u00e0 matriz energ\u00e9tica come\u00e7ou h\u00e1 cerca de duas d\u00e9cadas. Hoje, energia solar e e\u00f3lica representam 22,5% da capacidade instalada, com forte concentra\u00e7\u00e3o no Nordeste. No entanto, essa expans\u00e3o tem ocorrido sob o pretexto do &#8220;desenvolvimento sustent\u00e1vel&#8221;, resultando em apropria\u00e7\u00f5es de terras e&nbsp; deslocamentos for\u00e7ados de pequenos agricultores radicalizados.&nbsp;<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Embora a luta contra as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas seja uma prioridade pol\u00edtica global inquestion\u00e1vel, \u00e9 crucial examinar como os projetos &#8220;verdes&#8221; s\u00e3o planejados e implementados, bem como seus impactos diretos sobre as terras e os meios de subsist\u00eancia de comunidades rurais. A apropria\u00e7\u00e3o de terras vai al\u00e9m do uso direto da terra para a gera\u00e7\u00e3o de energia e\u00f3lica, abrangendo tamb\u00e9m as infra estruturas associadas, como a transmiss\u00e3o de eletricidade.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Por&nbsp; motivos como esse&nbsp; Breno Bringel (2023) critica esse consenso global de descarboniza\u00e7\u00e3o, destacando como as pol\u00edticas energ\u00e9ticas frequentemente favorecem interesses financeiros e corporativos em detrimento da justi\u00e7a clim\u00e1tica. Esse cen\u00e1rio \u00e9 particularmente evidente nas \u00e1reas rurais do Nordeste, onde comunidades negras continuam sendo desapropriadas, perpetuando ciclos de opress\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar, como afirmou a destacada antrop\u00f3loga L\u00e9lia Gonz\u00e1lez (1983), que o conceito de &#8220;ra\u00e7a&#8221; constitui um elemento crucial, influenciando as din\u00e2micas cotidianas das rela\u00e7\u00f5es interpessoais e institucionais, assim como o acesso a direitos e oportunidades. Essa influ\u00eancia racial est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 experi\u00eancia de g\u00eanero. Ao mesmo tempo, o g\u00eanero n\u00e3o pode ser analisado de forma isolada, pois est\u00e1 profundamente entrela\u00e7ado com a quest\u00e3o racial e a classe social. A configura\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea do capitalismo e do patriarcado coloca as mulheres, especialmente as negras, em uma posi\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel. Elas enfrentam a sobrecarga do trabalho n\u00e3o remunerado, muitas vezes t\u00eam seus direitos legais negados e s\u00e3o condenadas a uma vida prec\u00e1ria \u00e0s margens do capitalismo.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:image {\"id\":1231,\"sizeSlug\":\"large\",\"linkDestination\":\"none\"} --><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"385\" src=\"https:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/imagem_TeR_02-1024x385.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1231\" \/><figcaption>Resist\u00eancia das mulheres negras e camponesas \u00e0 instala\u00e7\u00e3o das torres em Tracunha\u00e9m. <br \/>\u00c0 direita, Maria da Concei\u00e7\u00e3o Gon\u00e7alves, moradora do assentamento Nova Cana\u00e3. \u00c0 esquerda Nzinga Cavalcante, moradora do S\u00edtio \u00c1gatha. Cr\u00e9ditos das imagens: Gus Cabrera (2022)<\/figcaption><\/figure>\n<p><!-- \/wp:image --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Nzinga Cavalcante (2022) ilustra essa realidade ao oferecer um poderoso testemunho sobre as viol\u00eancias de g\u00eanero e ra\u00e7a que as mulheres negras enfrentam ao administrar territ\u00f3rios rurais. Relata como a empresa respons\u00e1vel pelas linhas de transmiss\u00e3o no S\u00edtio \u00c1gatha&nbsp; intensificou o desrespeito ao descobrir que eram mulheres que administravam a terra:<br \/><em>&#8220;A empresa \u00e9 desumana, completamente desumana. Quando descobriram que eram mulheres quem administravam a terra, o desrespeito aumentou. Tivemos que nos impor com alega\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e humanas. Eu me sentia como quando chegaram \u00e0 \u00c1frica, para roubar nosso ouro, levando as pessoas sempre para a gan\u00e2ncia do dinheiro, para a avareza, e dessa avareza para o sangue, esse pecado&#8221;<\/em><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Essa reflex\u00e3o se relaciona com a an\u00e1lise da soci\u00f3loga Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9\u0301 Oy\u011bw\u00f9m\u00ed (2022), que aponta que o controle territorial por meio da financeiriza\u00e7\u00e3o da terra foi um mecanismo chave da coloniza\u00e7\u00e3o. Os colonizadores transformam os territ\u00f3rios em ativos financeiros, rompendo os ciclos ancestrais de gest\u00e3o comunit\u00e1ria, afetando especialmente as mulheres negras, uma vez que as leis coloniais estabeleciam que apenas os homens podiam ter acesso legal \u00e0 terra. Esse contexto de despojo e exclus\u00e3o destaca a necessidade de uma mudan\u00e7a de paradigma na compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre a terra e a mulher negra.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><strong>Saberes ancestrais como caminho para justi\u00e7a Afroecologica&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o africana e ind\u00edgena possui uma vis\u00e3o hol\u00edstica, reconhecendo que todos compartilham a mesma natureza. \u00c9 essencial preservar e transmitir \u00e0s pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es a ideia da terra como um elemento sagrado em uma dimens\u00e3o espiritual. Na mem\u00f3ria coletiva do S\u00edtio \u00c1gatha guardam-se diversas pr\u00e1ticas tradicionais, transmitidas por meio de cantos durante o plantio do milho, dan\u00e7as para alegrar as crian\u00e7as e prepara\u00e7\u00f5es coletivas da comida. Essas pr\u00e1ticas fortalecem o v\u00ednculo com a natureza e a ancestralidade, apontando para caminhos que superem a crise ambiental e o \u00f3dio racial na sociedade brasileira. Luiza Cavalcante (2022), ao criar o conceito de Afroecologia, enfatiza essa conex\u00e3o:<br \/><em>&#8220;Tenho mem\u00f3ria do cuidado pela natureza, pela vida e por quem tem fome. Essa rela\u00e7\u00e3o com a terra e a vida me acompanha e faz parte do S\u00edtio. Buscamos manter essa forma de cuidado em nossas atividades di\u00e1rias. Esse cuidado \u00e9 Afroecologia. Lembramos como nossos pais e av\u00f3s cuidavam da terra. Trazer isso para o presente tem sido importante e fortalecedor. O que o povo negro faz est\u00e1 ligado \u00e0 \u00c1frica&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:image {\"id\":1225,\"sizeSlug\":\"full\",\"linkDestination\":\"none\"} --><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1000\" height=\"667\" src=\"http:\/\/sitioagatha.org\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/foto-07-baixa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1225\" \/><figcaption>Luiza Cavalcante colhendo os frutos da terra. Cr\u00e9dito: Gus Cabrera (2022)<\/figcaption><\/figure>\n<p><!-- \/wp:image --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Afroecologia, como concebida pela mestra Luiza Cavalcante, reconhece que muitas das pr\u00e1ticas atualmente associadas \u00e0 agroecologia s\u00e3o, na verdade, saberes milenares desenvolvidos pelos povos afrodescendentes. Fundamentada nos conhecimentos tradicionais africanos, a Afroecologia n\u00e3o \u00e9 apenas uma pr\u00e1tica agr\u00edcola, mas um movimento que promove uma rela\u00e7\u00e3o hol\u00edstica com a natureza. Ao integrar m\u00e9todos agr\u00edcolas que dialoguem com o ecossistema, ela fortalece a seguran\u00e7a alimentar das comunidades e fomenta a resili\u00eancia clim\u00e1tica.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A viv\u00eancia dos saberes ancestrais valoriza pr\u00e1ticas culturais e apresenta solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e inovadoras para os desafios ambientais contempor\u00e2neos. O conceito de Afroecologia, nesse contexto, reflete a proposta da intelectual quilombola Beatriz do Nascimento (2022), que enfatiza a import\u00e2ncia de preservar os saberes e pr\u00e1ticas que sustentaram as comunidades negras ao longo do tempo. Essa continuidade negra reafirma a resist\u00eancia da ancestralidade como uma for\u00e7a viva contra a destrui\u00e7\u00e3o ambiental e social.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Em contraste, a realidade das linhas de transmiss\u00e3o de energia revela o conflito entre a resist\u00eancia comunit\u00e1ria e a explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria do territ\u00f3rio. A instala\u00e7\u00e3o da linha de transmiss\u00e3o de 500 kV Campina Grande III \u2013 Pau Ferro, conduzida pela empresa Rialma, exemplifica esse conflito. Este projeto foi realizado sem a devida consulta \u00e0s comunidades diretamente afetadas e sem a realiza\u00e7\u00e3o de audi\u00eancias p\u00fablicas, infringindo a Lei de Pol\u00edtica Nacional do Meio Ambiente (Lei n\u00ba 6.938\/1981), que estabelece a necessidade de participa\u00e7\u00e3o das comunidades na tomada de decis\u00f5es que impactem seus territ\u00f3rios. A falta de transpar\u00eancia e a aus\u00eancia de medidas mitigat\u00f3rias resultaram em impactos devastadores, como a morte de animais, a diminui\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es de abelhas, apropria\u00e7\u00e3o indevida de terras, fragmenta\u00e7\u00e3o social e mudan\u00e7a no modo de vida dos assentados da reforma agr\u00e1ria.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>A <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.grupoageenergia.com.br\/grupo-rialma\" target=\"_blank\">empresa Rialma<\/a>, controlada pela fam\u00edlia Caiado, carrega um hist\u00f3rico preocupante, com acusa\u00e7\u00f5es de pr\u00e1ticas de trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o em suas fazendas, o que reflete uma trajet\u00f3ria de explora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica e desrespeito aos direitos humanos. Diante dessa realidade, as comunidades afetadas t\u00eam reagido com resist\u00eancia criativa e propositiva, adotando pr\u00e1ticas de mapeamento participativo, oficinas e eventos culturais como forma de documentar os impactos e fortalecer suas tradi\u00e7\u00f5es. Essas iniciativas s\u00e3o exemplos de como a Afroecologia \u00e9 a ess\u00eancia dos saberes ancestrais e a luta pela prote\u00e7\u00e3o socioambiental onde suas a\u00e7\u00f5es s\u00e3o poderosas ferramentas de resist\u00eancia contra a explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria da nova etapa do capitalismo.&nbsp;<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>BISPO DOS SANTOS, Ant\u00f4nio. <em>A Terra Dar a Terra Quer<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Ubu, 2023.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>BRIGEL, Breno. <em>Del consenso de los commodities al consenso de la descarbonizaci\u00f3n<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/nuso.org\/articulo\/306-del-consenso-de-los-commodities-al-consenso-de-la-descarbonizacion\">https:\/\/nuso.org\/articulo\/306-del-consenso-de-los-commodities-al-consenso-de-la-descarbonizacion<\/a>. Acesso em: 12 nov. 2023.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>GONZALEZ, L\u00e9lia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: SILVA, L. A.; OLIVEIRA, M. C.; CARVALHO, J. M. (Org.). <em>Movimentos sociais urbanos, minorias e outros estudos<\/em>. Bras\u00edlia: ANPOCS, 1983.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>NASCIMENTO, Beatriz. <em>Quilombola e intelectual: possibilidade nos dias de destrui\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Filhos da \u00c1frica, 2017.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>OY\u011aW\u00d9M\u00cd, Oy\u00e8r\u00f3nk\u1eb9. <em>A inven\u00e7\u00e3o das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de g\u00eanero<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Wanderson Flor do Nascimento. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><em>Sobre o autor<\/em>: <\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Luis Antonio da Silva Soares \u00e9 bacharel em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e mestre em Extens\u00e3o Rural e Desenvolvimento Local pela mesma institui\u00e7\u00e3o. Especialista em Educa\u00e7\u00e3o Ambiental e Cultural pelo Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia de Pernambuco (IFPE) e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atuou como bolsista na Iniciativa de Pol\u00edticas de Transa\u00e7\u00f5es de Terras (Land Deal Politics Initiative &#8211; LDPI) e pesquisador no monitoramento do Projeto Dom Helder C\u00e2mara no semi\u00e1rido brasileiro. Atualmente, \u00e9 educador na Associa\u00e7\u00e3o S\u00edtio \u00c1gatha, desenvolvendo projetos nas \u00e1reas ambientais e culturais, com foco em agroecologia e no fortalecimento de comunidades tradicionais. Tamb\u00e9m integra o Grupo de Estudos Macondo: Artes, Culturas Contempor\u00e2neas e Outras Epistemologias da Unidade Acad\u00eamica de Serra Talhada (UAST\/UFRPE). Realiza est\u00e1gio de doutorado sandu\u00edche no Instituto de Estudios Regionales (INER) da Universidad de Antioquia, na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><em>Pesquisadoras<\/em> <em>colaboradoras<\/em>: <\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Nzinga Cavalcante \u00e9 m\u00e3e de \u00c1gatha, t\u00e9cnica em Agroecologia pelo SERTA (PE), graduanda no Bacharelado em Agroecologia, Educa\u00e7\u00e3o Popular e Campesinato na UFRPE. Esta tesoureira da Associa\u00e7\u00e3o S\u00edtio \u00c1gatha onde desenvolve atividades como educadora popular e como coordenadora de log\u00edstica. <\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p>Luiza Cavacalnte \u00e9 m\u00e3e de Nzinga e av\u00f3 de \u00c1gatha, brincante popular, mestra, educadora popular, t\u00e9cnica em Agroecologia pelo SERTA (PE). Conta com uma vasta trajet\u00f3ria em movimentos sociais e populares. Atualmente est\u00e1 presidenta da Associa\u00e7\u00e3o S\u00edtio \u00c1gatha, onde realiza tarefas de articula\u00e7\u00e3o, organiza\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o de projetos. <\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><em>Editor:<\/em> Gustavo Cabrera Christiansen \u00e9 comunicador social formado pela Universidad de Buenos Aires (Argentina). H\u00e1 mais de uma d\u00e9cada participa de coletivos de Comunica\u00e7\u00e3o Comunit\u00e1ria e Popular. Atualmente est\u00e1 mestrando no Programa de P\u00f3s Gradua\u00e7\u00e3o na Universidade Federal de Pernambuco. Integra a Associa\u00e7\u00e3o S\u00edtio \u00c1gatha, onde tem coordenado a \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o de diversos projetos.<br \/><em>Revis\u00e3o textual:<\/em> J\u00f4 Rodrigues \u00e9 plurifacetada, apaixonada pelas artes e pelos encontros. Percorre em v\u00e1rios territ\u00f3rios como a fotografia, a poesia e a contabilidade. Atualmente realiza seu prop\u00f3sito de compartilhar formas de elabora\u00e7\u00e3o de projetos culturais, sociais e ambientais, comunicando sobre a constru\u00e7\u00e3o coletiva de rela\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis.<br \/><em>Designer gr\u00e1fico: <\/em>Diego Amorim \u00e9 formado em Publicidade e propaganda (2011) e t\u00e9cnico em Design gr\u00e1fico (2006). J\u00e1 trabalhou alguns anos na \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o em ag\u00eancias de publicidade do Recife como Diretor de Arte. Tamb\u00e9m trabalhou para a  Associa\u00e7\u00e3o Metropolitana de Ciclistas do Recife e na Escola Livre de Redu\u00e7\u00e3o de Danos, dentre outros.&nbsp;Como ilustrador autodidata, nos \u00faltimos anos pesquisa cultura, hist\u00f3ria e arte africana outorgando um diferencial a seu trabalho autoral. <\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- wp:paragraph --><\/p>\n<p><!-- \/wp:paragraph --><\/p>\n","comment_info":"0","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1215"}],"collection":[{"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1215"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1215\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1237,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1215\/revisions\/1237"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1216"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sitioagatha.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}